Até quando os pacientes devem insistir no tratamento para infertilidade e como lidar com o resultado negativo

Por Ana Rosa Detilio Monaco*

O percurso percorrido pelos casais em tratamento para a infertilidade, por vezes, pode se tornar dramático. Muitos são os investimentos para que o sonho de ter um filho seja realizado. E quando falo em investimento, não me refiro apenas ao financeiro, mas, principalmente, ao emocional, fator determinante, em várias situações, para que o resultado seja positivo.

O longo caminho começa quando casal recebe o diagnóstico de infertilidade, o que impossibilita a concretização familiar, idealizada e esperada pela sociedade. A partir dessa verdade, inúmeros sentimentos, anteriormente desconhecidos, passam a fazer parte da rotina dos pacientes. Ninguém nunca imagina que ter filho pode ser algo impossível ou difícil.

A infertilidade dá origem à profunda tristeza, ansiedade, angustia e culpa, sendo a busca por tratamento um movimento para encontrar uma possível resolução para o problema.

A rotina de visitas ao médico, exames, alternativas terapêuticas e procedimentos têm um profundo impacto na vida destes casais, que passam a adotar uma nova rotina emocionalmente desgastante, o que chamo de “montanha-russa afetiva”. Diferentes sentimentos se apresentam de forma desordenada, oriundos de várias informações e possibilidades apresentadas ao casal durante o tratamento de reprodução assistida.

Mesmo diante de tanta determinação e vontade, o tratamento para a infertilidade traz uma realidade angustiante: a incerteza de que o resultado será positivo. Não estamos falando do investimento num “super carro” e sim do desejado filho, é uma outra forma de depositar expectativas, estas mais afetivas.

No meu cotidiano, é comum ver casais persistindo no sonho, mesmo que cansados, desgastados física e emocionalmente, mas, ainda assim, determinados. Os pacientes sempre me relatam que, enquanto puderem, não irão desistir.

Eu sempre penso se existe um momento certo para parar. E acredito que a medida que a ciência permitir, a mim, só cabe apoiá-los se ficar evidente que também existem condições reais e, principalmente, emocionais para continuar.

Quando o “não” torna-se real

Mas e quando não há mais alternativas médicas a serem percorridas? Quando não houver mais novas possibilidades técnicas? Quando o psicológico se mostra devastado? O que fazer?

Esse é o momento mais dramático de um procedimento em reprodução assistida. Preparar-se para enfrentar a outra possibilidade — a de realmente não poder ter filhos, mesmo com todas as tentativas de tratamento — e encontrar formas para continuar a viver e poder se sentir realizado mesmo que parcialmente, porém, saudável.

A meu ver, as pessoas que buscam gerar o filho sonhado, quando recorrem às técnicas devem ser alertados pelos médicos sobre esta possibilidade e precisam aprender a lidar com o fator negativo, porque acabam pensando apenas no positivo. Após numerosas e desgastantes tentativas, que fazem parte das técnicas, os pacientes começam a perceber que a possibilidade do fracasso vai se tornando mais real. Nesse momento, é fundamental o suporte psicológico para auxiliar a repensar os limites. É preciso ter o plano B.

Muitas pessoas afirmam que, se não der certo o tratamento, vão morar em outro país ou pensam em adotar, estudar e etc. A questão é que o discurso e a realidade têm pesos muito diferentes. Refletir frente à realidade de mudar o percurso é fundamental.

A psicologia entende que cada pessoa tende a viver estas emoções de forma muito particular, por isso a importância de estar com um psicólogo especializado, a fim de identificar e auxiliar os pacientes neste trajeto tão solitário. O acompanhamento vai ajudá-los a entender e elaborar a nova realidade.

A possibilidade de frustração no tratamento deve ser enfrentada, mas fazer isto não é fácil, níveis de estresse alterados, distúrbios de ansiedade e quadros depressivos podem surgir nestes casos, principalmente, quando não se está consciente das limitações do tratamento.

O momento de parar se mostra para cada casal de forma muito diferente. Muitos só param quando ultrapassaram todas as possibilidades e a desorganização emocional está instalada sem que se dêem conta.

Muito triste é observar que, quando algumas pessoas não têm sucesso nos tratamentos e não conseguem se reinventar, ficam infelizes, frustradas e muito solitárias em suas dores. Casamentos podem acabar, carreiras podem ser interrompidas, amigos perdidos. Alguns pacientes acreditam que só poderiam ter sido felizes se tivessem gerado um filho. Aprender a lidar com perdas é algo que casais em tratamento de reprodução assistida devem saber, porque enquanto houver vida, haverá motivos para seguir adiante.