Quando um dos genitores apresenta problema genético, ele pode ser infértil e repassar a infertilidade aos seus descendentes

As doenças genéticas são anomalias dos genes ou cromossomos herdados dos pais. Os genes são a constituição biológica de um indivíduo proveniente dos genitores no ato da concepção. Esses genes determinam características sanguíneas, aparência e se há predisposição a determinadas doenças.

Existem inúmeras doenças genéticas transmitidas aos filhos, sendo que muitas podem interferir na fertilidade dos descendentes. Estas podem ser classificadas em três grupos: as monogênicas (causadas por mutações na sequência de DNA de um gene), as poligênicas ou multifatoriais (ocorre interação dos genes com os fatores ambientais) e as cromossômicas. As doenças cromossômicas são originadas por problemas estruturais dos cromossomos, como mudança na posição e variação em seu número. A maioria é muito rara e de herança multifatorial.

Na mulher, as doenças genéticas podem se manifestar por meio de alteração do número ou da estrutura dos cromossomos e estar associada com a insuficiência prematura do ovário, disfunção ovulatória, produção de óvulos imaturos, produção de óvulos morfologicamente e geneticamente anormais, anomalias do desenvolvimento embrionário, falhas da implantação, abortos de repetição e anomalias fetais.

Quanto aos homens, eles podem apresentar oligospermia (número de espermatozoides menor do que 15 milhões por mililitros), astenozoospermia (alteração na motilidade), teratozoopsermia (alteração na forma) ou azoospermia. Nas oligospermias severas e azoospermias é frequente a presença de alterações genéticas, especialmente do cromossomo Y. As principais doenças genéticas masculinas são: Síndrome de Klinefelter (anomalia que aumenta o número de cromossomos), criptorquidismo (descida incompleta dos testículos), Síndrome Noonan (alteração cromossômica que afeta, principalmente, o maxilar e a estatura do indivíduo), distrofia muscular miotônica (alteração do cromossomo que atinge os sistemas muscular, cardiovascular, respiratório, digestivo, endócrino, visual, auditivo, ósteo-articular e nervoso), anemia falciforme (causa malformações das hemácias) e fibrose cística (mutações no gene que causa ausência congênita bilateral dos vasos deferentes).

Se tanto a mulher como o homem apresentar infertilidade decorrente de doenças genéticas, há uma grande probabilidade de seus filhos serem inférteis.

O diagnóstico deverá ser realizado através de exames de cariótipo e pesquisa de microdeleção do cromossomo Y. Quando alterados, é indicado um aconselhamento com informações adequadas aos casais sobre os riscos de transmissão a prole.

Tratamento para a infertilidade

No passado, homens portadores de anormalidades genéticas foram quase sempre estéreis, mas, atualmente, é possível ser pai ao adotar o tratamento de fertilização in vitro (FIV) com a utilização da injeção introcitoplasmática de espermatozoides (ICSI) com espermatozoides ou espermátides obtidos através de aspiração micro-epidimal (MESA) ou extração testicular (TESE). A infertilidade pode ser minimizada, mas há um risco considerável de transmissão de defeitos genéticos à prole masculina, no caso de alterações do cromossomo Y, ao utilizar esse método. Para evitar os danos causados pela injeção de espermatozoide ao paciente, é sugerido um tratamento com o PGD.

A prevenção da ICSI é realizada pelo Diagnóstico Genético Pré-Implantacional (PGD). Esta técnica é utilizada para os casos em que existe uma possibilidade elevada de transmissão de doenças genéticas aos filhos. É uma forma precoce de diagnóstico genético pré-natal e se destina à prevenção de doenças genéticas antes que a gestação tenha se estabelecido.

Após a Injeção Intracitoplasmática de Espermatozóides (ICSI), os pré-embriões são mantidos em cultivo por três dias, quando, então, atingem estágios entre seis a oito células. Pela micromanipulação, são retiradas de uma a duas células de cada pré-embrião que serão analisadas por técnicas de biologia molecular. Somente são transferidos para o útero materno os pré-embriões que não tenham a possibilidade de desenvolver as doenças genéticas analisadas. As taxas de gravidez são similares às de FIV, mais de 50%.

Além da FIV com biópsia para PGD, outro tipo de tratamento é o uso de gametas doados – óvulos ou espermatozoides – que serão fertilizados em laboratório.

Cuidados

Não é possível evitar a infertilidade decorrente de doenças genéticas nos pais, mas deve-se impedir que os filhos sejam afetados. Nesse caso, quando há infertilidade num casal acometido por disfunções genéticas, é preciso realizar um diagnóstico correto das causas para aconselhar o casal sobre os riscos de transmissão aos seus descendentes. Sugere-se, também, um controle sistemático de qualidade da prole com testes para detectar anormalidades genéticas até então conhecidas.

É necessário, ainda, estabelecer métodos diagnósticos relevantes aos casais afetados, a fim de tornar possível selecionar aqueles pacientes nos quais a aplicação de novas tecnologias não parece trazer risco genético significante e, por outro lado, identificar casais nos quais este risco está aumentado, considerando-se alternativas como o uso de gametas doados.